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Ditadura em Curitiba: José de Abreu lança livro sobre episódio que virou piada e alvo da indignação

Em livro, o historiador José de Abreu revisita uma Curitiba que se fez palco de absurdos e histéricos episódios de perseguição política

Não, não se trata de 2016, mas de 1978. Mas é praticamente impossível conhecer a história da perseguição política focada em duas pré-escolas de Curitiba no período da Ditadura Militar sem estabelecer imediatamente uma comparação com os fatos que se desenrolam diante dos nossos olhos e sob a lente filtrada do noticiário nos dias de hoje. Sem ficar com uma tremenda sensação de “déjà vu” martelando as ideias.

No dia 4 de novembro, o historiador José de Abreu lançará em Curitiba o livro “Operação Pequeno Príncipe – Polícia Política e Marxismo Infantil no Paraná”. A obra e os fatos apresentados nela são leituras obrigatórias e indispensáveis nestes tempos em que o discernimento vira pré-requisito da resistência. A compreensão dos fatos passados e atuais se torna fator de eliminação de barreiras geracionais nessa resistência ao golpismo, retrocessos e à intolerância, quando reúne nas ruas jovens de várias idades, que se indignam e chamam para si a responsabilidade de contestar e banir o conservadorismo.

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SINOPSE:

O Paraná foi palco de acontecimentos ainda ignorados pela historiografia da ditadura civil militar brasileira. O presente trabalho busca preencher parte dessa lacuna, mostrando algumas especificidades locais do período autoritário a partir da análise de uma ação repressiva denominada Operação Pequeno Príncipe, deflagrada pela polícia política paranaense, em Curitiba, no ano de 1978, na qual onze pessoas ligadas a duas pré-escolas – Oficina e Oca – foram detidas, acusadas de doutrinar crianças de 1 a 6 anos dentro de princípios marxistas e de conspirar contra o governo Geisel.

Após quase quatro décadas, documentos encontrados no Arquivo Público do Paraná, demonstram que três sequestros ocorridos durante os anos de 1970, em Curitiba, e atribuídos ao grupo paramilitar CCC, tiveram a participação do DOI-CODI e da DOPS paranaense, esta última, chefiada pelo delegado Ozias Algauer, o “Fleury” do Paraná. A obra discute o surgimento da Comissão de Justiça e Paz de Curitiba, cujo batismo de fogo se deu ao liderar um amplo movimento de resistência à violência estatal e clandestina, que chamou a atenção da comunidade internacional para a capital paranaense.

O humor acerca do episódio das escolinhas subversivas, também se faz presente como no caso do garoto Alvinho, personagem criado pelo cronista Carlos Novaes, que após ser doutrinado na escolinha Oficina, converteu-se ao marxismo-leninismo e começou a ter problemas de relacionamento com os pais. Essas são algumas das narrativas que compõem esta obra cujo eixo é a história dos subversivos paranaenses, nomeados pelo cineasta Valêncio Xavier como Os Onze de Curitiba, que foram parar na cadeia porque davam “Chapeuzinho Vermelho para as crianças lerem”.

Em sua coluna, publicada no jornal Gazeta do Povo no dia 19 de agosto de 2016, o jornalista José Carlos Fernandes descreve a obra de José de Abreu e nos convida a fazer uma imersão na sociedade curitibana do final da década de 70, ambiente favorável à ridícula e histérica perseguição de pais e professores de duas escolas de educação infantil pela Polícia Federal em Curitiba, a polícia política da ditadura militar instalada aqui.

josedeabreuhistoriador

Curitiba, 1978, nos braços da ditadura Gazeta do Povo, 19/08/2016 | Coluna de José Carlos Fernandes

Historiador se debruça sobre o fechamento das escolas Oficina e Oca pela Polícia Federal, no final dos anos 1970. Por uma semana, capital paranaense virou palco de luta pela democracia

(…) Curitiba ganhou o status de cemitério de direitistas histéricos que trancafiavam pais de alunos num porão insalubre da Polícia Federal (a delegacia ficava na Rua Ubaldino do Amaral, entre o estádio do Coxa e a casa do Dalton Trevisan – foto). Rendeu editorial do Jornal do Brasil. Os principais cronistas brasileiros de então não deixaram passar: Carlos Drummond de Andrade e Carlos Novaes dedicaram saborosas linhas às escolinhas de comunismo de “Curitiba, a estranha”. Itamar Franco, Armando Falcão, Raimundo Faoro estrilaram.

Vale lembrar que a Oficina (nascida na Vila Oficinas) e a Oca (instalada no Estádio do Colorado) não foram as primeiras escolas livres a ganhar mordaça. Em 1966, um pequeno colégio chamado, adivinhem, “Pequeno Príncipe”, também foi fechado na cidade, debaixo da mesma acusação. Dessa vez, quem se divertiu foi Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, em sua imbatível coluna Febeapá, que em tradução literal significa “Festival de Besteiras que Assola o País”.

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